A Opinião de Carlos Gamito

Jornalista
carlos.gamito@iol.pt

Nos bastidores da prostituição

 
A prostituição.
As filhas más das famílias boas.
As filhas boas das famílias más.
O obscurantismo das noites.
As noites que encobrem verdades tornadas inverdades em cada dia iluminado pela luz do Sol.
Os dias que expõem o esgar silencioso da nostalgia que rege aquelas vidas que, com o advento da noite, são maquilhadas por doces sorrisos e ternas palavras.
Palavras ditas com sotaque.
Sotaque desprendido pelas origens das muitas e dos muitos protagonistas que incorporam a prostituição.
Multiplicam-se os factores que franqueiam as portadas de acesso ao mundo onde as mulheres se despem.
Despem o corpo.
Despem os sentimentos.
Despem a alma.
Só o coração fica coberto.
Coberto de vazio e submerso na opacidade das lágrimas que teimam em correr nas veias de metal que sustentam a capacidade de sorrir de cada prostituta.
 

Os famigerados contratos-de-compra-e-venda de prazer carnal

 
No mundo subterrâneo da prostituição, são sobrantes as situações que se desenrolam naquele perímetro onde se estabelecem contratos-de-compra-e-venda de fortuitos momentos de prazer centrados na carne.
Na carne humana.
Na carne daquelas pessoas que um dia nasceram mulher.
 

As noites coloridas e as noites brancas

 
Para trás deixei algumas considerações que legitimam o meu olhar sobre a prática da prostituição, mas quero aqui gritar, lamentavelmente em silêncio, que sou um apaixonado por putas.
Escrito com a frieza e frontalidade da afirmação acima expressa, naturalmente que induzo as leitoras e os leitores a ilações deturpadas, devendo por isso adiantar que no corpo de uma puta existe uma alma de Mulher.
Aquela mesma mulher que derrama lágrimas amargas que tenta secar em cada dia da sua vida, porque com a chegada da noite fica obrigada a mascarar a dor do seu infortúnio e a desprender rasgados sorrisos ornados pela artificial simpatia vertida em jeito de falsa ternura que tanto deleita aqueles homens que, fruto das mais diversas razões sempre do foro psíquico, procuram o equilíbrio emocional e afectivo nos serviços prestados pelas prostitutas.
Mas as noites, enquanto iluminadas pela luz da lua, brilham e são coloridas ou pelo reflexo das bebidas engalanadas por elementos decorativos, ou pelas luzes psicadélicas que, em movimentos assimétricos, oferecem cenários que se conjugam com o idílio das imaginárias paixões.
Silenciada a música ambiente que ao longo da noite até proporciona uns passos de dança que de dança só mesmo os lânguidos movimentos que unem os corpos, são acesas as luzes brancas dos espaços onde se promovem os referidos contratos de compra-e-venda de afectos.
Com o fim de cada noite, as mulheres que alugam o seu corpo voltam a reencontrar-se com a realidade.
É o reencontro com o vazio.
O vazio que preenche a vida daquelas mulheres um dia nascidas sob um manto cinzento que com o rasgar das folhas do calendário se foi tornando densamente negro e que culminou no encontro do deprimente circuito da prostituição.
Quando ao longo desta peça me afirmei um apaixonado pelas putas, faço notar que essa paixão fica confinada às muitas horas que tenho passado a escutar a voz dorida e o rolar silencioso das lágrimas desprendidas por aquelas mulheres.
É a voz ora tartamudeada pelo efeito do álcool ingerido por força do seu trabalho, ora alagada de tristeza.
Os diálogos que ao longo de décadas têm decorrido entre mim e as putas, só não os considero ricos porque no seu cerne está o sofrimento.
O sofrimento humano.
O sofrimento carnal e espiritual de quem a vida escolheu para integrar o mundo escarpado da prostituição.
Têm sido conversas, ou melhor, têm sido relatos que desnudam os comportamentos ignóbeis tidos entre quatro paredes pelos denominados clientes.
Os clientes que usam as putas como meros nacos de carne onde e em quem, vertiginosamente, desramam os seus ímpetos quantas vezes assentes em puros quadros pintados pela negridão do prazer só conseguido através de momentos impregnados de psicopatologias.
São histórias de arrepiar, não são histórias de encantar.
São histórias que um sem número de vezes terminam com a frustrante pergunta: Carlos, hoje não trabalhei e não tenho dinheiro para o táxi. Levas-me a casa?
 

Abolicionismo?! Mas onde termina a realidade e começa a utopia?!

 
Data do início da década de 60 do século XX que, em defesa da saúde pública, foi decretada a ilegalização da prostituição em Portugal.
Até à época existiam casas licenciadas e concentradas nos grandes centros urbanos onde as prostitutas, devidamente registadas e com vigilância médica regular, exerciam a sua actividade.
E hoje?!
Hoje assistimos à prática desordenada e selvagem da prostituição, mas em condições degradantes.
Absolutamente degradantes.
A vulnerabilidade das prostitutas está exposta em todos os planos inerentes à sua actividade.
Para além da total desprotecção social onde se incluem os indispensáveis cuidados sanitários como salvaguarda da saúde pública, somos também confrontados com o desumano tráfico de mulheres que sustentam o florescimento do lenocínio encontrado nas mais diversas plataformas físicas ou digitais.
E termino com uma interrogação que remeto aos autoproclamados movimentos abolicionistas da prostituição: onde termina a realidade e começa a utopia?