A Opinião de Daniel Cardoso

Doutor em Ciências da Comunicação; professor auxiliar a tempo integral na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias; professor auxiliar convidado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (UNL) e no Instituto das Novas Profissões; faz também parte da coordenação do Grupo de Trabalho Género & Sexualidades da SOPCOM e da coordenação da Research Network Sexuality da ESA. As suas áreas de interesse focam-se nas não-monogamias consensuais, diversidade sexual, feminismos, LGBTQ, juventude e cibercultura.
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(In)definir sexo e trabalho

Começo por fazer duas ressalvas: nunca fiz trabalho sexual, e nunca abordei directamente em investigação o tema. Por isso, há uma série de perspectivas sobre as quais não tenho capacidade ou competência para comentar. Ainda assim, e enquanto pessoa que trabalha sobre os media, analisar o que neles sucede – em conversas de redes sociais, por exemplo – poderá ajudar a trazer outra perspectiva. Quero portanto desnaturalizar algumas das nossas certezas categoriais.
A mais relevante, no que diz respeito a este tema, é mesmo sobre a definição de trabalho sexual – porque a actividade prostitutiva é apenas uma sub-secção deste trabalho, porque actos como a pornografia mainstream fazem parte deste trabalho. Até aqui, creio, pouco me terão a apontar (quanto ao uso do termo ‘trabalho’, já lá irei). Porém, há um ponto a partir do qual as coisas se complicam: onde é que começa o trabalho sexual? A actriz do filme de Hollywood que faz um nu parcial conta? E a que simula uma cena de sexo? Ou a modelo fotográfica que posa para a Playboy? Talvez a pessoa que esteja nua numa aula de Belas Artes? Todas estas pessoas estão a usar o seu corpo de uma forma potencialmente sexual (mesmo a pessoa que posa para a aula de Belas Artes não sabe como depois irá ser usada a imagem, ainda que aquele momento não tenha qualquer carga sexual), e a retirar disso alguma compensação monetária. A linha é tudo menos auto-evidente, e a forma como o seu policiamento é feito diz mais sobre quem faz esse policiamento, do que sobre as actividades descritas.
A parte do trabalho, então… Diz-se, especialmente a partir de uma abordagem mais de esquerda clássica, que de chamar “trabalho” ao trabalho sexual é uma tentativa de branqueamento do carácter explorador por detrás, de tentativa de dignificar o inominável. Ora, esta crítica, vinda de onde vem, espanta-me. Eu diria que, num contexto capitalista, nenhum trabalho dignifica a pessoa humana, porque todo o trabalho é exploração. Chamar o trabalho sexual de trabalho não é querer dizer que ele dignifica a pessoa humana – quer dizer que ele está ao mesmo nível das outras formas de exploração laboral, e que alienar grupos inteiros de pessoas da possibilidade de exercer poder reivindicativo nos seus próprios (e diversos) termos não conduz a uma diminuição dessa exploração. Procurar impedir quem faz trabalho sexual de se posicionar dessa forma é, na verdade, defender o trabalho em contexto de exploração, e reclamar para esse trabalho-enquanto-exploração um carácter moralmente superior, quando nenhuma forma de trabalho capitalista pode ter qualquer modo de superioridade moral.
Por fim, querer manter o capitalismo fora da sexualidade – e achar que isso é fazível pelo irreconhecimento do trabalho sexual – é quixotesco. Primeiro, porque reafirma a sexualidade na sua dimensão normativa e disciplinar; segundo, porque não se pode manter fora algo que já está dentro. Tudo é agora atravessado pelo capitalismo. Singularizar o trabalho sexual não mudará isso.

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