Entrevista

Entrevista de Carlos Gamito


A D. Neusa Domingos fixou o olhar nos horizontes que encerram o futuro

Com o olhar mergulhado na intensidade do amor maternal, foi com palavras cheias de palavras que a D. Neusa Domingos nos falou sobre o mapa da sua vida, ou melhor, da vida que lhe estendeu a malinha de mão atestada de esperança e com a qual viajou até Portugal.
Foi o Brasil, mais concretamente o Estado de Minas Gerais, que no ano de 1955 viu nascer esta Mulher que exala determinação.
Decorria o ano de 2005 quando no então denominado Aeroporto da Portela (hoje Aeroporto Humberto Delgado), Lisboa, aterrou um dos gigantes pássaros de metal que transportava aquela Mulher de coração dilacerado mas embebido nas muitas expectativas oferecidas por Deus.

Um testemunho forte onde só as lágrimas foram amarradas pela força desta Mãe


Os filhos estão sempre na linha da frente na tomada de decisões de qualquer
mãe, e a testemunhar essa verdade atentemos às palavras da D. Neusa Domingos

Devidamente acomodados no espaço que testemunhou esta entrevista, lançámos aquela que parece ser a pergunta desnecessária, todavia e porque nem sempre a lógica se apresenta como factor ímpar, eis a pergunta aqui deixada em discurso directo: D. Neusa, que motivações estiveram na raiz da sua imigração? A nossa interlocutora, com o olhar vivo e expressivo que a caracteriza, foi, como é seu apanágio, objectiva na resposta: «Vejamos: eu, no Brasil, pese embora com remunerações francamente baixas, sempre tive trabalho e nunca estive na situação de desempregada, mas com algum esforço conseguia responder às responsabilidades que enquanto mãe divorciada e sem qualquer apoio financeiro estava obrigada perante os meus três filhos, no entanto e apesar de a situação não ser desesperante, não reunia as condições necessárias para poder realizar o grande desejo dos meus filhos. Os três sempre manifestaram o sonho de na altura certa poderem ser matriculados numa faculdade e licenciarem-se. Acredite o senhor que os meus parcos rendimentos não me possibilitavam pagar a faculdade de um, quanto mais fazer face às despesas dos três. Sentia o coração despedaçado por saber que não tinha qualquer alternativa para assumir aquele encargo que representava o grande anseio das minhas três pérolas sagradas, e foi num determinado momento que ergui os olhos para Deus e supliquei-Lhe que me ajudasse. A minha súplica foi atendida e Ele indicou-me o caminho da imigração. Com a devida dignidade haveria de encontrar trabalho e ganhar o dinheiro necessário para pagar a faculdade dos meus filhos. Imigrei para Portugal.»
Ante este louvável e comovente depoimento, o espaço da sala aquietou-se e só sobrou um divo silêncio coarctado pelos batimentos cardíacos de toda a equipa que trabalhou nesta entrevista.
A título de nota de reportagem cabe aqui informar que os dois filhos mais velhos da D. Neusa Domingos concluíram os seus cursos superiores, sendo que a filha mais nova vive com a mãe em Portugal.

 

“Discriminada e humilhada fui sim, mas no meu próprio país”


Visivelmente indignada com o comportamento de um agente policial que
controlou a sua saída do Brasil, a D. Neusa Domingos não poupou palavras para
relatar o acontecimento

Visivelmente indignada com o comportamento de um agente policial que controlou a sua saída do Brasil, a D. Neusa Domingos não poupou palavras para relatar o acontecimento
Ao sabor sereno e informal da conversa, solicitámos à D. Neusa que nos descrevesse os seus primeiros passos em Portugal.
Sempre com extrema atenção às perguntas que lhe endereçávamos, a nossa entrevistada desprendeu um quase imperceptível sorriso e: «Antes de lhe falar sobre a minha chegada a Portugal, vou relatar-lhe a tormenta que vivi para sair do Brasil. Como à época – 2005 – ainda não efectuavam voos directos entre Belo Horizonte e Portugal, viajei até à Bahia para depois embarcar para a Europa. Antes de continuar devo dizer-lhe que a minha bagagem se resumia a uma pequenina mala de mão. Dirigi-me então à sala de embarque onde a Polícia Federal efectuava o controlo de saída dos passageiros. Um dos agentes da polícia interceptou-me e pediu o passaporte e o cartão de embarque. Olhou os documentos, entregou-mos e aí começou um interrogatório que eu nunca imaginei possível ante uma pessoa tão simples como eu. O homem (agente policial) começou por fixar o olhar nos meus seios e a tentar espreitar para dentro do decote da blusa. Simultaneamente ia-me dirigindo piropos que muito embora não fossem ofensivos, eram de todo impróprios vindos de um agente da polícia em pleno exercício de funções. De entre as muitas perguntas que me fez, perguntou-me o que é que eu ia fazer para Portugal. Limitei-me a responder-lhe que ia trabalhar. E ele retorquiu: “Vai trabalhar?! Mas se você nem português sabe falar, vai para Portugal trabalhar em quê?! À semelhança da maioria das mulheres brasileiras que viajam sozinhas para Portugal, será mais uma que vai trabalhar na prostituição!” Acredite, senhor Carlos, que nunca me senti tão discriminada e humilhada como no meu próprio país. Foi um momento que por tão deprimente não o consigo apagar da memória, mas pronto, passou. São episódios que a vida nos reserva mas que ninguém merece. Entretanto embarquei e cheguei a Portugal. Sem conhecer ninguém e por indicação do taxista hospedei-me numa pensão. Passados dois dias, através de uma agência de empregos, arranjei trabalho como empregada doméstica numa casa onde estive dois anos e meio.»

A corrosiva saudade foi compensada com a realização do sonho dos filhos


Vencer a nem sempre vencível dor da saudade, foi mais um feito conseguido
por esta enorme Mulher

Viver, já é só por si um acto de coragem, mas uma mulher sozinha, mãe de filhos, ter capacidade anímica para imigrar, obedece a uma coragem elevada ao mais alto grau na equação da determinação e que oferece ao ser humano o estatuto de grandes Mulheres e grandes Homens.
Considerando o pensamento acima, instámos a D. Neusa sobre a fórmula que encontrou para gerir a dor aliada à saudade que corrói o coração de qualquer mãe. Sempre com palavras firmes escoradas pela verticalidade, eis a resposta que registámos: «Naturalmente que a nossa vontade é estar sempre junto da família que amamos, mas quando a vida nos obriga a estabelecer objectivos que envolvam o bem-estar dos nossos filhos, só nos resta vencer a dolorosa saudade com a força que nos é transmitida pela razão que motivou a separação.» E concluiu: «Confesso que é muito, mas mesmo muito difícil, mas no meu caso todo o sofrimento foi compensado com a realização do sonho dos meus filhos.»

“Trabalhei, trabalhei muito, fui sempre respeitada, viajei por Portugal e já visitei os meus filhos no Brasil”


«Trabalhei, trabalhei muito, fui sempre respeitada, viajei por Portugal
e já visitei os meus filhos no Brasil», esta uma das fortes afirmações deixadas
por esta Mulher que há onze anos deixou a sua terra natal, Minas Gerais, Brasil»

Recordamos que a D. Neusa Domingos chegou a Portugal no ano de 2005 e em 2007 tinha a sua situação de imigrante devidamente legalizada.
Volvidos que estão onze anos a viver e a trabalhar no país que acolheu esta determinada Mulher, foi sensibilizante registar as suas palavras que, em duas frases, traçaram o quadro retrospectivo da já ultrapassada década vivida em Portugal: «Fazendo um balanço geral destes onze anos, posso afirmar-lhe que foi um período francamente profícuo e feliz. Trabalhei, trabalhei muito, fui sempre respeitada, viajei por Portugal e já visitei os meus filhos no Brasil.»
O brilhante sorriso que iluminou este venturoso testemunho foi quase abruptamente fechado.
Em seu lugar ficou um semblante pintado de cinzento.
Mas porque a vida é feita de causas, também os sorrisos têm as suas causas para se fecharem.
E o sorriso da D. Neusa fechou-se espontaneamente no momento em que nos informou que há cerca de ano e meio lhe fora diagnosticada uma patologia do foro oncológico. A situação está clinicamente controlada, e a D. Neusa fez questão de endereçar um forte abraço de profundo reconhecimento à equipa multidisciplinar que a acompanha no IPO de Lisboa.

Uma muito sentida palavra de elevado agradecimento à comuniDária


A entrevista foi fechada com o nobre sentimento de reconhecimento e gratidão
endereçado pela D. Neusa Domingos à Associação ComuniDária

O fim da entrevista avizinhava-se.
Consideramos que muito ficou por escrever, mas porque na imprensa escrita os estudos ditam que há regras a observar no que concerne ao número de caracteres, isto na perspectiva de não cansarmos o leitor mas antes prendermos a sua atenção, vamos terminar, aqui também em discurso directo, com a derradeira questão colocada à D. Neusa Domingos: D. Neusa, de entre os apoios que lhe foram prestados ao longo destes anos, quer deixar uma palavra à Associação Comunidária? «Quero sim. Quero dizer a todas as pessoas que a Comunidária desenvolve um trabalho de acompanhamento e informação junto da comunidade imigrante muitíssimo gratificante. Não encontro as palavras certas e capazes de testemunharem com rigor o meu sentido agradecimento a essa Associação. Fui sempre muito bem aconselhada e devidamente informada pela Associação.» E acentuou: «Sei que a qualquer momento posso recorrer aos serviços da Associação que está sempre de portas abertas para, no âmbito da sua missão, ajudar quem precisa.» Nitidamente sensibilizada, usou palavras ternas para fazer ecoar o seu estado de alma: «Do fundo do meu coração quero enviar um enorme beijo a todas as pessoas que colaboram com a Comunidária.»