Ecos da desigualdade

Desigualdades de oportunidades entre raparigas e rapazes começam antes do ensino básico, mas é nesta fase que se consolidam

 

A conjuntura atual, no que respeita às desigualdades de oportunidades entre os géneros feminino e masculino, frequentemente, revelam múltiplas causas de raíz complexa. Complexa, porém, não complicado de se entender…

crédito imagem: Stanford University

A UNESCO, em 2012, publicou o relatório World Atlas of Gender Equality in Education. A informação correspondente atualizada para 2016 encontra-se disponível no eAtlas of Gender Equality and Education, dando conta da respetiva evolução (ou não…). Raparigas em idade escolar (1º e 2º ciclos) continuam maioritariamente, e um pouco por todo o globo, em desvantagem no que toca ao ingresso no processo de escolarização, comparativamente aos rapazes (embora se observe que, a partir do 3º ciclo, os rapazes tendem a abandonar a escola, segundo uma análise comparada efetuada em 2016), sendo que “as regiões onde as crianças têm mais dificuldades para terminar o 1º e 2º ciclo são: Africa Subsaariana, onde o 43% dos estudantes abandonam a escola, a Ásia do Sul com 34%, e Ásia Oriental com 25% das crianças nessa situação”.

“O índice de paridade entre os géneros (IPG)[feminino e masculino], permite uma análise da (des)igual participação de raparigas e rapazes na educação. A maioria dos países das regiões Sul e Oeste da Africa, Estados Árabes e Africa Subsaariana ainda não atingiram a igualdade nem para o nível básico, nem secundário”[1].

crédito imagem: Gilmore Girls

Todavia, não apenas a privação da escolarização e as suas consequências diretas e a médio-longo prazo (desigualdade de oportunidades no acesso a determinadas carreiras académicas, no acesso a determinadas ofertas de emprego, cingimento à esfera da vida privada, etc.), se revela preocupante quando prestamos atenção aos números do relatório acima indicado, mas ainda e, talvez, sobretudo, as consequências indiretas, como sejam, os outcomes do processo de socialização  e do peso na influência de uma cultura que reproduz e alimenta as desigualdades de oportunidades e as discriminações múltiplas com base no género.

Abraçando a tese de Debbie Sterling (ver video), de que as escolhas de raparigas e rapazes são fruto da “nossa cultura”, produzida e reproduzida através da educação, entre outros processos de socialização: “A Educação deve preparar raparigas e rapazes para a vida adulta e para a vida ativa e capacitar umas e outros para a participação em todas as esferas da sociedade e nos vários coletivos de pertença de cada indivíduo, mulher ou homem”.

Poderemos então inferir, de acordo com a informação que tem vindo a ser partilhada que, não obstante os programas, demais medidas e consequentes evoluções em matéria de mudança desta cultura de discriminação com base nos géneros, os resultados não se revelam significativos.  Desde cedo, as raparigas e os rapazes passam por uma formatação (socialização) com base no género (constructo social), sendo que se espera [e incentiva a] que as primeiras venham a brincar com bonecas e aprendam a aplicar maquilhagem e que os segundos,  brinquem com materiais de construção, do tipo “Lego”. As meninas/raparigas/mulheres tendem a ser, elas próprias, reprodutoras da cultura dominante assumindo, muitas vezes, uma consciência tardia, já que na infância/ juventude, gostariam que lhes dissessem que eram bonitas e não que eram inteligentes.

Em 2012, Teresa Fragoso (CIG) corrobora que a socialização de género, significativamente influenciada pelos padrões culturais, alimenta a reprodução das desigualdades sociais, na medida em que “preparam-se rapazes e raparigas para papéis sociais diferentes criando sobre umas e outros expectativas distintas quanto a características físicas e psicológicas, “comportamentos, atitudes, atividades, tarefas e funções desejáveis e apropriadas a cada um dos géneros”. (Fragoso, in III ISA, 2012). Toda a educação é enviesada pela socialização, nomeadamente, a de género [a educação das raparigas e rapazes é feita de forma diferente contribuindo para a construção de identidades de género dicotómicas e excludentes entre si].

crédito imagem: Global Economic Symposium

Os anos passam e a contextura não muda. Até quando continuaremos a ter de fazer este tipo de observações, constatar a sua conduta, as suas consequências e a retirar delas as mesmas conclusões? Temos acesso a dados, assumimos que compreendemos a realidade social, porém, continuamos a afirmar “as coisas são assim”. A realidade mantém-se, portanto.  Mesmo que concedido às raparigas o seu direito à escolarização, a educação  e a socialização ecarregam-se  de manter os mesmos padrões culturais que a encaminham a um futuro desparitário.  Até quando queremos ver as nossas raparigas, futuras mulheres, metade da população mundial, a permanecerem em desvantagem e a condescender um mundo patriarcal? 

[1]Estudo publicado a