Pessoa de Lá : Fátima Vera Cruz

 Da imigração à imigração passando pela imigração

 Entrevista de Carlos Gamito

Foi uma longa e documentativa conversa. Foi uma conversa onde ficaram bem a nu os muitos valores trazidos por quem deixou os seus países de origem e escolheu Portugal para criar e desenvolver actividades que patenteiam as capacidades subjacentes ao universo de imigrantes. Fica o retrato de todas essas capacidades aqui expressas pela Dra. Fátima Vera Cruz

Estávamos num fim de tarde do início do Outono de 2016.
Um fim de tarde que desprendia uma brisa fria e própria da estação do ano que, indiferente à nossa incomodidade, ia suavemente despenteando os arbustos que ofereceram o seu colorido de tons verdes ao cenário desta entrevista.
Foi uma entrevista onde cada sílaba proferida pela entrevistada deixava um eco de júbilo no sentir do entrevistador.
Que grande Mulher!

O aniversário da Associação “Men Non” (Nossa Mãe) e a celebração do dia 19 de Setembro de 1974

Os animados festejos acontecidos com os ritmos quentes oriundos dos países africanos, ofereceram vida à comemoração do aniversário da Men Non 

Antes de darmos voz à conversa encetada com a Dra. Ilidiacolina Fátima dos Santos Vera Cruz, cumprimos, com rigor, as normas informativas que devem ser observadas pelo jornalista e, nesse sentido, para além de nos associarmos à homenagem histórica que encerra a data em que decorreu esta entrevista – 25 de Setembro de 2016 –, antecipamos um sintetizado relato sobre o evento que coloriu a sede da Associação ACOSP – Associação da Comunidade de S. Tomé e Príncipe, que serviu de palco e abrigou os festejos comemorativos do sexto aniversário da Associação “Men Non”. Men non que em crioulo forro, ou seja, na língua tradicional santomense significa “Nossa Mãe”.
Decorria o mês de Setembro de 2010 quando a Dra. Fátima Vera Cruz chamou a si a responsabilidade de fundar a  Associação “Men Non”.
A solenização desta data foi iluminada pelo brilho incandescente que brota nas festas africanas onde os singulares sons musicais fazem serpentear os corpos de quem,genuinamente, sabe oferecer vida e movimento aos passos de dança bem ritmados que reflectem os costumes e a cultura dos povos oriundos dos países africanos.
Ainda dentro dos festejos que se iniciaram a 19 de Setembro e que terminaram a 25 de Setembro, foi efusivamente celebrado o passado mas sempre presente dia 19 de Setembro de 1974, dia em que as mulheres santomenses saíram às ruas do Arquipélago para reivindicarem a independência de S. Tomé e Príncipe.

O percurso académico da Dra. Fátima Vera Cruz

  «…vou lutar para que um dia venha a ser uma empresária de sucesso na área da hotelaria e do   turismo».

 E agora sim, a entrevista.
«Sou natural da Ilha de S. Tomé, onde nasci no ano de 1969. Relativamente às razões que me trouxeram para Portugal, onde cheguei no ano de 1986, prenderam-se
fundamentalmente pela minha férrea vontade de fazer um curso superior. Em S. Tomé estudei até ao décimo primeiro ano, mas a falta de estruturas para continuar os estudos levaram-me a procurar um país onde encontrasse as condições necessárias para concretizar o meu sonho de sempre, e então imigrei para Portugal.» E a Dra. Fátima Vera Cruz continuou: «Ainda no ano em que cheguei, ingressei e conclui um curso profissional de cozinha e pastelaria, o qual teve a duração de dois anos. Depois e sempre com a mesma motivação, continuei a estudar e terminei o décimo segundo ano. Terminado o ensino secundário tirei o bacharelato na área de Gestão de Empresas Turísticas e Hoteleiras, até que me licenciei em Planeamento e Desenvolvimento Turístico.»
Com um quase imperceptível sorriso, a Dra. Fátima Vera Cruz confessou-se muito feliz e realizada por ter conseguido atingir um dos mais altos patamares na íngreme escadaria do universo académico, todavia lamentou nunca lhe ter sido proporcionada uma colocação profissional no âmbito da sua formação, mas, e já com um sorriso aberto, adiantou-nos que se sente muito bem a desenvolver um projecto de promoção e divulgação da gastronomia tradicional santomense, em paralelo com a lusofonia, e explicou: «Considero a gastronomia santomense francamente rica, mas verifico que é uma gastronomia com imensas semelhanças e influências de outros países lusófonos como por exemplo Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e até do Brasil, o que na minha opinião se mostra um enquadramento muito enriquecedor e sobejamente interessante.»

Palavras verticais desta grande Mulher

A Dra. Fátima Vera Cruz, fez-nos uma breve descrição da sua chegada a Portugal

A Dra. Fátima Vera Cruz, com voz suave, pausada e bem recortada, com as suas declarações sempre assertivas, ia oferecendo corpo à entrevista, e à nossa pergunta sobre qual foi a sensação à chegada a Lisboa, respondeu: «Há já muitos anos, eu e os meus pais tínhamos vindo de férias a Lisboa, portanto guardava uma vaga imagem na minha memória, mas quando vim para ficar adaptei-me muitíssimo bem à cidade e às pessoas. Naturalmente que não podemos estabelecer paralelos entre Lisboa e S. Tomé e Príncipe. É de todo impensável comparar as estruturas de uma capital europeia a um Arquipélago africano, pelo que a melhor resposta é dizer-lhe que são realidades completamente distintas. Se me sinto integrada na sociedade portuguesa? Sim, apesar de ser confrontada com algumas situações que me desagradam, de um modo geral estou bem, pese embora não deixe de tomar posições ante circunstâncias que colidam com os meus valores de mulher e de cidadã.»

“Fui socialmente discriminada”, disse-nos a Dra. Fátima Vera Cruz

Atendendo a que a nossa interlocutora fez referência a situações mais desagradáveis, não podíamos deixar de a instar acerca dessas mesmas situações. Com o olhar vivo que a caracteriza, a Dra. Fátima Vera Cruz foi objectiva: «As situações que me marcaram pela negativa centraram-se fundamentalmente nas discriminações a que já fui sujeita. Já fui discriminada não só a nível pessoal como profissional, mas devo adiantar-lhe que entretanto fui-me habituando e hoje já não provocam o efeito que provocavam há uns anos atrás.» E detalhou: «Os anos passam mas as memórias ficam, e isto para lhe dizer que quando terminei a minha formação, candidatei-me a empregos que requeriam pessoas com o meu perfil, no entanto houve empresas que não me aceitaram por ser negra, enquanto outras recusaram a minha candidatura por ser gorda. Foram de facto vivências que no momento e como é natural me deixaram abalada, mas o tempo foi passando e hoje estou muito mais preparada para me defender das injustiças sociais.»
Porque pela frente tínhamos a fundadora da Associação “Men Non”, instámo-la sobre se há relatos desses preconceitos por parte das e dos associados, ao que a Dra. Fátima Vera Cruz nos informou que as pessoas hoje se fecham no mais absoluto silêncio, mas não deixou de nos dizer que dentro de portas continua a haver discriminação, muito embora de forma menos acentuada que no passado recente.
 

 Uma mensagem de esperança aos concidadãos santomenses e uma sentida saudação remetida à família que vive em S. Tomé e Príncipe

E a festa continuou noite dentro…

A conversa ia fluindo e a entrevista adensava-se.
Nós, que temos por obrigação prender a atenção do leitor e nunca o cansarmos com textos demasiadamente extensos, sentimos que e apesar da aprazibilidade do diálogo, era importante concluirmos a entrevista, e por se mostrar oportuno, solicitámos à Dra. Fátima Vera Cruz que endereçasse uma mensagem a todas e todos os santomenses que vivem em Portugal.
Ei-la:
«Aos meus conterrâneos que vivem em Portugal, apelo para que tenham muita coragem e determinação. Recordo a todos que a nossa Associação tem as portas abertas para todas as mulheres e todos os homens que necessitem do nosso apoio. Apesar de muitas vezes ser mal interpretada a designação “Men Non”, termo que traduzido do inglês significa “homens não”, quero por isso deixar bem claro que a Associação assiste não só mulheres como também homens. Jamais caminharíamos pela ignóbil desigualdade de género. Atendendo a que a Associação não conta com qualquer espécie de patrocínio governamental – a nossa sustentabilidade está centrada nalgumas actividades que vamos desenvolvendo ou de modo próprio ou em parceria com instituições congéneres –, não dispomos por isso de meios para prestar ajuda material a quem nos procura, mas apoiamos incondicionalmente em todos os trâmites que envolvam situações de cariz burocrático. Exalto todos os imigrantes santomenses a manterem sempre o espírito mergulhado na Fé e na Esperança.»
Visivelmente acomodada nas suas próprias palavras, a Dra. Fátima Vera Cruz não terminou sem antes: «Permita-me, por favor, que deixe um voto pessoal dirigido à mulher que na circunstância sou eu: com a ajuda de Deus e o desmedido empenho que pulula dentro de mim, vou lutar para que um dia venha a ser uma empresária de sucesso na área da hotelaria e do turismo». Com um sonoro e bonito riso, a nossa interlocutora voltou a fixar-nos e, com uma encoberta emoção terminou: «Não posso deixar de enviar um saudoso beijinho à minha querida mamã, Ilídia Vera Cruz, aos meus irmãos e sobrinhos que estão em S. Tomé e Príncipe.»