Entrevistado Maio Coopé

O ontem, o hoje e o futuro sonhado por Maio Coopé

Entrevista de Carlos Gamito
carlos.gamito@iol.pt

Maio Coopé, com uma linguagem simples e própria de quem se pauta pela simplicidade, despiu o coração e vestiu com palavras sentidas a sua nobreza de espírito

Entre risos rasgados e sorrisos bem recortados, iniciámos a entrevista.
Foi uma entrevista que ressoou à mais frondosa ode sobre o amor, sobre a música e sobre as artes plásticas, constituintes que materializam o espírito solidário arreigado na pessoa do nosso entrevistado, Maio Coopé.
Maio Coopé, nascido na República da Guiné-Bissau no ano de 1962, em 2002, a mando do seu sentimento artístico, atravessou o imenso Atlântico na perspectiva de rasgar novos horizontes e imigrou para Portugal.
Com um olhar melífluo e voz pausada, Maio Coopé sempre expectante e muito atento às questões que lhe colocávamos, fez uso da palavra e, soberbamente, num dos momentos altos da conversa derramou este nobre testemunho: «A razão maior que norteou a decisão de imigrar prendeu-se fundamentalmente com a minha obstinada vontade de conhecer novas realidades. Cruzar-me com outros conhecimentos e, acima de tudo, encontrar uma vida minimamente confortável e iluminada pelos holofotes não do estrelato mas sim dos sucessos possíveis a serem conseguidos pelas canções que vou escrevendo e musicando, assim como pelos quadros que o meu sentimento vai pincelando em cada tela». Sem ser interrompido e como que a escutar as suas próprias palavras, continuou: «Eu vivia num país isolado, e esse isolamento despertava em mim uma indescritível determinação em arremessar-me para outros mundos onde pudesse fazer ecoar a minha voz, a minha arte e promover a divulgação da cultura das gentes da Guiné-Bissau.»

A substantiva diferença entre o vir e o ficar

Atravessado o imenso Atlântico, decidir ficar provocou, momentaneamente, alguma agitação. São as   agitações que se reflectem quando a viagem não tem regresso

Relativamente às memórias arrumadas no baú de cada imigrante onde ficam registadas as primeiras passadas dadas no país de acolhimento, Maio Coopé entrançou as palavras e foi objectivo: «Fruto das minhas frequentes viagens a Portugal que compreendiam sempre estar presente em festivais de música, quando naquele dia voltei a desembarcar em Lisboa foi só mais um reencontro com a cidade que já conhecia, o que por isso não me provocou qualquer tipo de surpresa, no entanto confesso que quando decidi ficar senti alguma agitação que se podia traduzir pelas chamadas borboletas na barriga. Foi uma nova realidade. Estava entregue a mim próprio. Comecei tudo do zero. Tinha que encontrar condições de sobrevivência. Deu certo. Continuo na luta.»
Maio Coopé, sempre com palavras escoradas pela firmeza, mostrava-se a personificação do espírito combatente de quem imigra.
«Quando cheguei a Lisboa com o propósito de me fixar, comecei por estabelecer alguns contactos com produtores musicais para apresentar o meu trabalho. Paralelamente ia fazendo estágios na área musical não só com vista a melhorar a minha música como também estava afundado na determinação de aperfeiçoar as capacidades de tocar e de cantar.»

As saudades da família são mitigadas através das novas tecnologias

A família está sempre presente através das novas tecnologias que hoje aproximam o mundo

Além-mar, Maio Coopé deixou, como é natural, elementos da família, nomeadamente uma filha, todavia adiantou-nos que Portugal – onde tem dois filhos e mais uma filha, esta a residir na Alemanha – o acolheu com a hospitalidade própria dos portugueses, sentindo-se hoje muitíssimo bem integrado e acomodado na sociedade que elegeu para viver, a sociedade portuguesa. Também registámos que desde a sua chegada a Lisboa (2002) não voltou à Guiné-Bissau, mas graças às novas tecnologias que permitem contactos à distância em tempo real, acompanha com regularidade o dia-a-dia da filha e dos restantes familiares.

Maio Coopé escreve as canções que canta, musica-as e toca cabaça,

isto para além de tocar outros instrumentos de percussão

Maio Coopé confessou-nos que a sua paixão pela música nasceu quando também ele nasceu

Instado a falar-nos sobre a sua carreira musical, Maio Coopé desenhou um sorriso e: «Tudo começou ainda em criança. Já na escola primária cantarolava umas canções e sentia-me apreciado tanto pelos professores como pelos colegas. Hoje escrevo poemas e musico-os com composições originais criadas por mim. Sem subtrair a génese que caracteriza a tradicional música guineense, faço alguns arranjos e ofereço uma nova roupagem à musicalidade que se toca e canta na Guiné-Bissau».
Maio Coopé sublinhou que o instrumento musical que mais utiliza é a cabaça, no entanto também toca qualquer instrumento de percussão.
Segundo Maio Coopé, a cabaça, por se mostrar um instrumento amplamente versátil – imagine-se que até pode ser tocado mergulhado na água –, oferece uma sonoridade que empresta aos ritmos africanos uma genuinidade só entoada nas quentes e deslumbrantes festividades vividas e ataviadas pelas plácidas palmeiras que conferem uma beleza ímpar aos países de África.

A pintura de Maio Coopé

A foto, registada numa das actuações de Maio Coopé, está iluminada com a cor que veste a pintura artística deste artista: o lilás

No que concerne à pintura artística, Maio Coopé responde em todas as vertentes que encerra esta arte, ou seja, pinta figurativo, onde se inclui o retrato, desenha e pinta abstracto e também encaminha os seus pincéis para a pintura de paisagens.
Dentro do vasto manancial oferecido pelo mundo paisagístico, Maio Coopé não esconde a sua paixão pela pintura das paisagens tornadas postais ilustrados em cada dourado pôr-do-sol que acontece na Guiné-Bissau.
A título de curiosidade e considerando que cada um de nós tem preferência por uma determinada cor, o lilás é o tom que presenteia com mais vida não só a pintura, como a alma de Maio Coopé.

“Quero sensibilizar muitos corações através da minha paixão: a Arte.”

“Sou um homem feliz e com um mundo para oferecer. Quero sensibilizar muitos corações através da minha paixão: a Arte”, esta a derradeira afirmação deixada por Maio Coopé

Com um acentuado espírito onde sobra o filantropismo, ante a nossa derradeira pergunta sobre os projectos que tem desenhados para o futuro, Maio Coopé lançou um silencioso olhar ao vazio e com a voz do sentimento respondeu-nos: «Os meus projectos para o futuro estão inteiramente focados no regresso à Guiné-Bissau onde ambiciono desenvolver um trabalho junto das escolas de modo a sensibilizar as crianças do quanto a arte é essencial para a humanidade.» Sempre com o olhar firmado no infinito, frisou: «Hoje as crianças não brincam. Não socializam. Estão fechadas consigo próprias e limitam-se às frias e impessoais redes sociais e aos jogos electrónicos, e por essa ser uma realidade que me entristece, o meu sonho é devolver às crianças a sua condição de criança.»
E a entrevista, pintada com as cores do romantismo, terminou com estas palavras deixadas por Maio Coopé: «Sou um homem feliz e com um mundo para oferecer. Quero sensibilizar muitos corações através da minha paixão: a Arte.»