Maria Magdala

A voz da Mulher
A Mulher defensora de causas
A Mulher que é Presidente da Associação Comunidária

Entrevista de Carlos Gamito
carlos.gamito@iol.pt

A determinação, transparência e objectividade das palavras, foram o traço-de-união que escorou esta entrevista.
Foi uma entrevista densa e amplamente documentativa.
Foi a entrevista que retrata os valores que norteiam a postura da Mulher.
A Mulher que foi co-fundadora e desde sempre Presidente da Associação Comunidária.
A Mulher de seu nome Maria Magdala Porto Lopes.
A Mulher nascida na cidade de Arapiraca, Estado de Alagoas, Brasil.
A Mulher que no tempo próprio deixou o agreste nordestino e rumou à cosmopolita cidade de São Paulo onde concluiu os seus estudos superiores.

A família é sempre o pilar da vida

Estávamos ante mais uma Pessoa de Lá.
Mais uma pessoa que num dia do passado acenou o lencinho do adeus e partiu. Arrumou a bagagem, acondicionou a saudade e imigrou.
Porque o acto de imigrar encerra sempre uma acção com contornos de intrepidez, num primeiro momento instámos a nossa interlocutora sobre as motivações que alumiaram a sua decisão em atravessar o imenso Atlântico e aterrar em Lisboa. Maria Magdala lançou um olhar quase imperceptível ao passado e: «Sem uma razão que eu consiga explicar, o facto é que talvez com os meus tenros doze anos de idade comecei a sentir uma forte vontade de conhecer outros mundos, outras culturas, outras gentes. Ainda criança já me sentia atraída pelo conhecimento de novos universos, no entanto a causa que realmente impulsionou a realização desse meu sonho foi ditada pelo destino. O destino que não escolhemos mas que está traçado no mapa das nossas vidas, sendo que no meu caso foi o reagrupamento familiar que me levou a imigrar. O meu ex-marido, também ele brasileiro e pai do único filho que tenho, imigrou para Portugal, depois, numa segunda fase, fui eu e o meu filho – à época com seis anos de idade – que no final de 2005 viajámos para Portugal.»

Imigrar é como viajar por um túnel sepultado nas trevas

Maria Magdala, visivelmente confortada com as suas próprias palavras, quando questionada sobre se o seu processo de integração na sociedade portuguesa correspondeu ao famigerado sonho de criança, utilizou palavras simples mas repletas de conteúdo para nos deixar a resposta: «Considero o meu processo de imigração e consequente integração na sociedade portuguesa como um desafio que vivo em cada dia da minha vida. Naturalmente que volvidos estes anos, o sentimento que gera esse desafio já se situa num grau muito reduzido, mas não posso deixar de confessar que nem a minha formação superior a nível académico nem as experiências no plano profissional me isentam das eventuais surpresas a que qualquer pessoa imigrante está sujeita.» E sublinhou: «Imigrar envolve sempre uma compacta opacidade. Nunca sabemos o que e quem vamos encontrar, e no meu caso concreto que cheguei sem uma rede familiar – para além do marido e da enorme responsabilidade de ter um filho nos braços –, sem pessoas amigas e sem qualquer perspectiva de emprego, tenho que confessar que vivi dias marcados pela angústia que chegava a tanger o desespero.» E concluiu assim o seu raciocínio: «Creia que se eu tivesse o menor conhecimento da dimensão subjacente às dificuldades com que se confrontam as mulheres imigrantes, decerto que teria pensado milhões de vezes antes de deixar o Brasil.»

O ser dirigente associativa

A conversa ia fluindo ao sabor das memórias que acarretavam algumas compreensivas emoções, mas chegados a esta fase entrámos noutro capítulo.
Recordamos que Maria Magdala Porto Lopes é Presidente da Associação Comunidária, uma Associação que pugna pelo apoio solidário e que se entrega às causas dos direitos das mulheres e pessoas imigrantes em diversas vertentes do plano social. Atendendo à ocupação do cargo e ao desempenho das tarefas que lhe estão adstritas, suscitou-nos questionar esta dirigente associativa se a função em que está investida obedece, entre outros factores, a um espírito moldado e solidamente cimentado pelo soberano pluralismo. A resposta chegou-nos pronta: «No meu caso precisei e continuo a precisar de ter vários braços, vários tentáculos. Quando chamamos a nós a responsabilidade de dirigir uma ONG, são sobrantes os desafios que afrontam a nossa vida.» E exemplificou: «Eu por exemplo tenho um filho adolescente que necessita não só do meu acompanhamento como também de condições estruturais para o seu desenvolvimento, e esse quesito obedece a uma conjuntura financeira que obriga a um desdobramento profissional capaz de garantir – e volto a fazer referência ao meu caso – a minha sustentabilidade e a sustentabilidade do meu filho.»

O nascer do espírito associativo

A dádiva humana é um sentimento que orna a alma das pessoas, mas lamentavelmente são poucas as pessoas que nascem com a alma ornada por esse nobre sentimento.
Maria Magdala, interpelada sobre como e quando sentiu o desflorar do espírito que a move a defender e apoiar causas humanas, foi peremptória na resposta: «Considerando as minhas origens, é inegável que desde criança sinto um enérgico chamamento pela defesa e consequente apoio ao trabalho comunitário. As minhas origens paternas estão fortemente ligadas ao trabalho voluntário. É uma família constituída por pessoas sãs. Pessoas boas. Pessoas que cultivam o bem.» E a este propósito recordou Maria Magdala: «Tenho bem presente na memória que teria eu sete ou oito anos de idade e já dava explicações de matemática e português às crianças da minha idade. Eram as filhas e os filhos dos humildes trabalhadores daquela região. O nível socioeconómico daqueles agregados familiares perpassava o limiar da pobreza, e eu, mesmo sendo uma criança, sofria imenso com aquelas situações, e a forma que encontrava para as mitigar, passava, como lhe disse, por apoiar os filhos daqueles trabalhadores. Depois, fruto da minha condição de imigrante, nasceu a inspiração pelo associativismo, o qual serviu, serve e servirá para prestar apoio ao universo de imigrantes. Aliás, devo salientar que foi esse mesmo espírito associativo que me levou a percorrer o caminho que culminou na fundação da Associação Comunidária.»

O trabalho desenvolvido pela Associação Comunidária

A Associação Comunidária, segundo testemunhos que colhemos, é hoje reconhecida pelos serviços que, sob a égide do rigor, tem prestado às comunidades imigrantes residentes em Portugal. Mas em que territórios se destacam as acções desta Associação (?), esta a pergunta que endereçámos à sua Presidente. Maria Magdala, imbuída na serenidade que a caracteriza, avançou de imediato com a resposta: «As acções desenvolvidas pela nossa Associação apresentam-se fundamentalmente focalizadas na inclusão social das mulheres imigrantes. O trabalho da Comunidária está muito centrado na prestação de um dilatado apoio informativo no âmbito da preparação educacional para o exercício da cidadania, mas sempre no sentido de oferecer às pessoas ferramentas que as habilitem a, por si só, encontrarem os mecanismos necessários para a sua plena integração na sociedade.» E frisou: «Lamentavelmente vivemos num mundo em que estamos obrigados a lutar pela nossa própria cidadania, quando na verdade todos devíamos nascer com os direitos e deveres que garantissem a nossa condição de cidadã ou cidadão.»

“As Associações deviam ser respeitadas e dotadas de condições para desempenharem a trajectória da sua missão”

As palavras, com saber e com sabor, iam galgando o tempo que não conseguíamos amarrar, e porque as entrevistas em formato escrito obedecem a regras, nomeadamente o número de palavras utilizado, começámos a sentir a necessidade de mutilar a conversa e ainda com um sem-número de questões a colocar à nossa interlocutora.
Avançámos, e em discurso directo transcrevemos aqui a delicada pergunta com que confrontámos a Presidente da Comunidária: Maria Magdala, como classifica o associativismo em Portugal? «Em Portugal existem vários associativismos, ou se quiser, existem vários trabalhos que são desenvolvidos nos mais diversos sectores da sociedade portuguesa, no entanto aponto-lhe só duas vertentes do associativismo praticado em Portugal: o associativismo que protege as comunidades imigrantes e o associativismo que defende os direitos e a dignidade das mulheres.» E adiantou: «São milhares as Associações que proliferam pelo país, no entanto poucas são conhecidas e menos ainda reconhecidas. Ao pequeno associativismo não são atribuídos recursos para responder cabalmente às questões suscitadas pelas pessoas que recorrem aos seus serviços, situação que se traduz numa perfeita e inconsolável frustração sentida na carne de quem se propôs erguer uma estrutura com objectivos pautados pela elevação do altruísmo.» E não poupou palavras para sublinhar: «Se o associativismo nasceu como uma resposta aos problemas sociais que estiveram na origem da criação do próprio associativismo, essas Associações deviam ser respeitadas e dotadas de condições para desempenharem a trajectória da sua missão.»

O dia 8 de Março – Dia Internacional da Mulher – visto por Maria Magdala

O dia 8 de Março, comemorado no mundo como uma data histórica que assinala o Dia Internacional da Mulher, não podia ficar omisso nesta substantiva entrevista feita à Mulher.
À Mulher defensora dos direitos das Mulheres.
E considerando essa empenhada causa, solicitámos à Mulher, de seu nome Maria Magdala, que endereçasse uma mensagem a todas as Mulheres do mundo.
Eis o que registámos:
«Ao contrário do que possa ser pensado, o famigerado dia 8 de Março ficou inscrito na História como uma data gritada pela dor e pelo bárbaro sofrimento a que foram sujeitas centenas de Mulheres. Mulheres trabalhadoras que foram cruelmente queimadas vivas. Mulheres que no já longínquo século XIX lutavam pelos seus direitos.»
«A mensagem que quero endereçar a todas as Mulheres passa pelo olhar que todas devemos lançar ao caminho a ser trilhado no sentido da plena equidade. Caminhar em prol da igualdade é muito mais que iluminar a vida de cada Mulher, é transformar o mundo.»