Rebeca Aizic

Rebeca Aizic, a mulher que vive apaixonada por paixões

Entrevista de Carlos Gamito
carlos.gamito@iol.pt

O imenso mar, naquele fim de tarde tingido por um maravilhoso azul-marinho, espreguiçava-se serenamente sobre o dourado areal de uma das praias do litoral Oeste deste edénico Portugal.
O Sol, aquietado no infindo universo, desprendia os seus reluzentes raios que, indiscretamente, alumiaram e emprestaram calor às muitas palavras repletas de palavras aqui tornadas entrevista.
Foi mais uma entrevista que avoluma o acervo de entrevistas feitas às Pessoas de Lá.
Rebeca Aizic, nascida em 1962 no esplendoroso Rio de Janeiro, Brasil, no ano de 2005 ordenou os precisos, acondicionou-os na mala da saudade e imigrou para Portugal.
É uma Mulher que brota imensa vida e onde vivem muitas vidas.
São vidas escoradas pelo amor à família, amor às canções, amor às pessoas, amor à Vida.
Mas escutemos os dizeres desta Mulher. Esta Mulher de seu nome Rebeca Aizic.

Razões para imigrar? Foi simplesmente para descobrir e ouvir… o fado

«Que razões motivaram a minha imigração? Na conjuntura dessa razão está um conteúdo que me constrange bastante, mas porque é uma realidade, vou sintetizar o assunto». A nossa interlocutora fez uma pausa, lançou um demorado olhar sobre o infinito mar e: «Eu sou filha adoptiva. Não sei absolutamente nada acerca das minhas raízes. Não imagino quem possam ser os meus pais biológicos. Só sei que fui adoptada por um casal extraordinário. Aliás, qualificar os meus pais adoptivos de extraordinários, é manifestamente insuficiente, mas não consigo encontrar adjectivos que qualifiquem com rigor a nobreza de carácter daqueles meus queridos e saudosos pais criativos. Aceite como pura verdade que no seio da minha família adoptiva só reinava o amor. O mais cristalino dos amores. Entretanto cresci, fiz-me mulher, até que um dia, já bem adulta e mãe da minha filha, foi-me dito: “Rebeca, chegou o momento de saberes uma verdade até hoje bem guardada. Nem eu sou a tua mãe nem o meu marido é o teu pai, mas tu serás eternamente a nossa querida filha”. Carlos, acredite, naqueles minutos senti-me a cair num buraco negro e sem fundo». E continuou: «Não me pergunte o porquê deste depoimento, mas nem sempre conseguimos amarrar a emoção, e quem sabe se um dia não encontrarei a minha mãe biológica cá em Portugal. Agora voltando à sua pergunta sobre a razão da minha imigração, vou resumir as motivações não deixando de as enaltecer. O meu pai adoptivo era pianista, e curiosamente adorava fado. Sentava-se ao piano e, de forma exímia, tocava as músicas dos fados que lhe chegavam de Portugal. Eu, como que por magia, ficava fascinada e entrava nas nuvens a ouvir aquelas excelsas interpretações. Era uma musicalidade que não só me emocionava como me fazia sonhar. Sonhava vir para Portugal desfrutar e cantar os fados que só neste país são tocados e cantados. Imaginava a bela sonoridade que faz chorar as guitarras e a voz de quem emprestava sentimento ao fado. Carlos, volto a afirmar-lhe, eu sonhava viajar para Portugal só para descobrir a essência do fado, mas a minha situação não me oferecia condições para nada e muito menos para viajar. Era mãe solteira e tinha que trabalhar para criar a minha filha, mas porque a vida está sempre a surpreender-nos, imagine que um dia recebo a visita de uma amiga, a cantora Andréia Meneses, e diz-me: “vamos para Portugal?!” Eu só respondi: adorava, mas não posso. Não tenho condições de espécie nenhuma. Neste entretanto diz a minha filha: “Mãe, vamos”. E concluiu: «Olha, cá estou, e estou muito feliz».

O despertar da paixão pela música

Rebeca Aizic, por influência natural do ambiente que vivia no seio familiar, confessa-se apaixonada por música. Compõe, musica e toca violão, mas recuemos no tempo para melhor enquadrar essa paixão: «Ainda criança, talvez com seis ou sete anos de idade, já pululava dentro de mim uma forte vontade de tocar, e então pedi aos meus pais um violão, mas por ser um instrumento maior que eu, ofereceram-me um cavaquinho (risos). Cantar sempre cantei, no entanto teria eu oito anos quando a família se mudou para Brasília, e nessa altura fui estudar para o Colégio Marista. Como o Colégio tinha uma banda marcial, integrei a banda e comecei a tocar alguns instrumentos, destacando de entre eles a lira e a flauta-doce. Foi assim que a música foi despertando e crescendo no interior dos meus sentidos. Com a passagem do tempo tornei-me independente e comecei a actuar em várias casas de espectáculos e, simultaneamente, a participar em festivais de música organizados nos mais diversos Estados do Brasil.»

“Sou homossexual, ou se quiser, sou lésbica”

Sem sons musicais mas com a musicalidade que caracteriza o sotaque brasileiro, a conversa ia decorrendo sob a égide da informalidade, o que nos levou a questionar a nossa entrevistada sobre o seu percurso de vida no que concerne a afectos. Sabíamos que Rebeca Aizic tem uma filha, no entanto a figura do marido não tinha sido mencionada, sobrando dessa omissão a nossa vontade em instar: D. Rebeca, veio para Portugal com a sua filha, e o marido ficou no Brasil? Sempre afável e comunicativa, Rebeca Aizic desprendeu um largo sorriso e foi objectiva: «Carlos, nunca tive marido. Desde que sou mulher sempre senti o apelo da maternidade, mas jamais pensei em casar, e muito particularmente com um homem». E exclamou: «Sou homossexual, ou se quiser, sou lésbica.» E sem pausas desenvolveu: «Logo após o nascimento da minha filha vivi imenso tempo sozinha. O meu propósito foi cuidar da bebé. Depois conheci uma senhora, apaixonámo-nos e vivemos em união-de-facto durante dez anos. Foi uma relação pautada pelo máximo respeito, não só entre mim e a minha companheira, como também sempre com extremos cuidados na nossa postura de “casal”. Nunca houve lugar a palavras ou gestos de carácter mais íntimo, isto porque a minha filha vivia connosco e curiosamente tratava a minha parceira por tia.»
A complementar esta informação registámos que a D. Rebeca Aizic tinha vinte e quatro anos de idade quando trocou votos de comunhão com a sua companheira, sendo que a filha teria sensivelmente seis meses de vida, mas como o amor não é um sentimento estático, também esta paixão de Rebeca Aizic vivida durante uma década com a sua companheira, entrou em decomposição e a relação chegou ao fim.

Um coração aberto e disponível para abraçar o amor

O Sol, do alto do seu esplendor, mantinha-se cálido e até a emprestar algum calor à entrevista, e nós continuámos: D. Rebeca, tem presente a idade que teria quando se apercebeu da sua homossexualidade? «Carlos, eu desde sempre me senti diferente das outras meninas. Quando ainda bem pequena me ofereciam uma boneca, por exemplo, a minha vontade era atirá-la contra a parede, porque na realidade o que gostava mesmo era de brincar com carrinhos. Relativamente à descoberta e confirmação da minha homossexualidade, tinha dezassete para dezoito anos quando assumi para mim e para o mundo que era apaixonada por mulheres.» E sublinhou: «Não aceito que reprovem os meus sentimentos. Sou assim e quero ser respeitada tal como eu respeito tudo e todos, sendo que considero ser esta a base para um mundo melhor».
Ante esta total nudez de Rebeca Aizic, encontrámos espaço para lhe perguntar se já se apaixonou cá em Portugal. Foi entre sonoros risos que nos chegou a resposta: «Não, aqui em Portugal só conheci o trabalho, mas fico confiante que depois desta entrevista o meu coração se volte a abrir para reencontrar o amor.»
Deixada a resposta, foram as infindáveis gargalhadas que continuaram a ecoar naquele aprazível lugar beijado pelo infinito Oceano Atlântico.

O nascimento da filha de Rebeca Aizic

Conforme o mar ia galgando o areal, também o tempo ia galgando o próprio tempo. Ia galgando todo o tempo que nós dispúnhamos para continuar a amena conversa, mas no cumprimento das regras jornalísticas não teríamos muito mais tempo. As peças em formato de entrevista obedecem a um número limitado de caracteres de modo a não tornar o texto demasiado palavroso e consequentemente cansar o leitor, todavia ainda nos faltava colocar as breves e derradeiras questões.
E agora em discurso directo, transcrevemos mais uma pergunta: D. Rebeca, depois de todos os seus depoimentos onde fica bem evidente a sua homossexualidade, suscita-nos perguntar-lhe em que condições é que ficou grávida de cuja gravidez nasceu a sua filha. Rebeca Aizic, sempre com um sorriso que não cabia naquela praia, voltou a utilizar a objectividade para nos responder: «Carlos, apesar da minha homossexualidade, conforme já lhe disse, sempre senti uma extrema vontade de ser mãe. O chamamento da maternidade estava dentro de mim, e houve um momento em que essa disposição se adensou, o que resultou num romance – ainda que muito curto – do qual resultou a minha gravidez. Fiquei felicíssima com o nascimento da minha filha, e hoje irradio felicidade por já ter uma querida netinha».

“Estou de bem com a vida e sinto-me feliz em Portugal”

Com a sensação de obra inacabada – muito ficou por escrever – sentimos chegado o momento de deixar a derradeira pergunta: D. Rebeca, está nos seus horizontes regressar ao Brasil? Registámos esta resposta: «Devo confessar-lhe que tenho imensas saudades especialmente dos amigos, mas atendendo ao estado caótico em que o Brasil mergulhou, francamente não tenciono voltar ao país que me viu nascer». E terminou: «A minha referência no Brasil era o meu pai que, entretanto, faleceu, agora só resta o vazio, e é aqui em frente a este mar que me sinto feliz. Felicidade essa acrescida pelo facto de ter lançado, na imensidão destas águas, as cinzas do meu saudoso e muito querido pai. Carlos, estou de bem com a vida e sinto-me feliz em Portugal».

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