Histórias de Vida
O Silêncio
Depois de alguns meses de desencontros conheci Lúcia, uma mulher imigrante de 45 anos que já vivia em Portugal há cinco anos, queria inicialmente saber como é que poderia voltar ao seu país de origem com toda a sua família. Não tinha dinheiro para fazer isto e nem ao menos para renovar os papéis da sua autorização de residência os quais já estavam prestes a vencer. Não era uma mulher consumista, nem estava endividada, simplesmente os seus rendimentos só chegavam para cobrir o aluguer da casa e as despesas básicas de alimentação dos filhos que viviam com ela e o marido no país estrangeiro. Exercia o seu trabalho como empregada de limpeza numa clínica, das 9h00 às 21h00, não possuía nenhum contrato formal e justificava com revolta os motivos da sua condição: a crise económica de Portugal.
Saiu sozinha do Brasil, proveniente de uma família com baixos recursos económicos, mas lá nunca tinha feito uma faxina sequer. Veio na frente para abrir fronteiras para sua família e logo que chegou transformou-se em empregada doméstica interna na casa de uma idosa que durante dois anos não colaborou com a construção da sua nova cidadania e nem ao menos com o acesso a sua legalização em Portugal.
“A patroa sempre dizia que tinha medo do valor das coimas e por este motivo não poderia dar contrato”, assim falou Lúcia justificando os motivos da sua “antiga senhora”. Sem a informação necessária Lúcia durante dois anos, abaixo de um regime de pão e água, sem horas para almoço, com apenas meio dia de folga semanal, isolada, mas com a meta de poder comprar a casa própria no país de origem e poder viver com a sua família por lá, manteve-se silenciosa.
Lúcia trazia consigo um pedaço da história de várias mulheres que ousaram migrar sozinhas: com o sonho de uma Europa que lhe daria uma boa situação de vida.
No entanto, havia algo oculto que ia além da exploração do trabalho que ela descrevia. Após uma hora de conversa, Lúcia revelou que há mais de um ano era diariamente assediada sexualmente pelo seu patrão, com toques, com abraços e outras coisas que não quis completar por considerar-se uma mulher direita e religiosa, levantando-se subitamente da cadeira e fugindo da sala onde conversávamos.
Prisioneira do medo, das reações do marido, da perda do emprego, da expulsão do país e do escândalo que poderia causar na vida familiar também do “Sr.Patrão”; Lúcia resolveu silenciar-se.
Apenas houve tempo de lhe falar da legislação no nosso segundo e último encontro. Sei que decidiu ir embora, retornou ao seu país de origem, levando consigo nenhum dinheiro, pouco conhecimento e o grande desafio de recomeçar, com a sombra de um agressor que ainda está dentro dela e não longe de nós...
Por Magdala de Gusmão
Nota: Esta história é real, tem como objetivo a prevenção e combate a situações de abuso, exploração e violência de género. Devido à necessidade de manter a confidencialidade dos relatos e a privacidade das pessoas envolvidas os nomes, datas, locais foram modificados.















